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Tende piedade de nós

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Certa vez,  meu pai, Abelardo Jurema, que  já havia ultrapassado os 70 anos, escrevia, ao meu lado, o seu artigo  para publicação no jornal O Norte, em que recordava  os velhos e bons tempos de sua juventude.  Repentinamente, retirou o papel da máquina Olivetti  e resolveu mudar o tema da crônica que já se desenhava.   - Porque parou, meu pai, quis saber.  O texto estava tão bonito... - Vou mudar o assunto, meu filho. De repente percebi que todos os amigos que citei até agora estão mortos. É muito triste observar que aqueles que fizeram parte da nossa vida não estão mais aqui. Permaneci calado por alguns instantes, refletindo o quão doloroso deveria ser olhar para trás e  para os lados,  e se sentir sozinho no meio da multidão, sem ter referências do passado nem com quem conversar sobre as experiências vividas, sobre as alegrias compartilhadas e as dificuldades vencidas.   Percebi que o tal  “elixir da juventude”, tema recorrente em  alguns filmes como "Eternamente jovem", com Mel Gibson, ou o clássico Cocoon, de John Howard, só faria sentido se  fosse administrado para todos os nossos amigos. O mundo passa a ficar desinteressante sem eles,  e a vida deixa de ter sentido, quando  partem e levam  consigo as nossas melhores  lembranças , arrancando  pedaços do nosso coração.   Hoje, aos 68 anos, experimento a mesma sensação, agravada por esses tempos obscuros de pandemia  em que,  toda semana,  assistimos a partida de  alguém que é retirado  do nosso convívio, desde velhos companheiros da infância e  adolescência,  até àqueles a quem conhecemos apenas  de longe mas que  foram nossas referências;  que  nos serviam de bússola e de exemplo na formação do nosso caráter  e na construção dos nossos sonhos e ideais. Nos últimos dias foram embora três homens que fizeram parte da história de todos os paraibanos. O  governador José Maranhão, a maior liderança popular o Estado; o jornalista Martinho Moreira Franco, um dos grandes nomes das letras e da cultura da nossa terra; e o advogado  Otinaldo Lourenço de Arruda Melo, um  comunicador que marcou o rádio do nosso tempo.   Está difícil, meu pai. Agora começo a compreender a sua angústia naquele dia em que interrompeu o seu trabalho, com os olhos marejados, constatando a passagem inexorável do tempo e as dores que isso produz. E com perspectivas ainda mais preocupantes, quando sabemos que o nosso destino não é nada alentador:  ou iremos chorar pela partida de quem amamos ou muitos  chorarão por nós.   E nesse momento grave, de luto,  de dor e de tristeza, quando mais de 230 mil brasileiros já morreram diante da apatia, do descaso e da falta de compaixão de quem tem o dever de protege-los; quando um General cuida da saúde e um Capitão se mostra mais preocupado em  armar a população do que com o seu sofrimento, sentimo-nos  desamparados e desorientados, assistindo a esse extermínio só comparado às grandes catástrofes mundiais  e  ao massacre do povo judeu na Segunda Grande Guerra Mundial.   Vacina, vacina, vacina! É tudo   que necessitamos para recuperar a confiança e a esperança em dias melhores para o nosso País.   Sem ela, só nos cabe rezar: Senhor, tende piedade de nós. 

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