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Se tem fome, dá de comer

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Filha mais velha do ‘coronel’ Oswaldo Pessoa; sobrinha do presidente João Pessoa;  sobrinha-neta de  Epitácio Pessoa, integrava a casta da  aristocracia paraibana; tratada como uma rainha de uma corte de sete irmãs, cortejada pelos homens mais importantes de sua época,  foi criada brincando nos jardins do Palácio da Redenção, com direito a governanta inglesa a lhe orientar os passos;    e foi aluna interna do rigoroso  Colégio das Freiras, o  Sagrado Coração de Jesus, em Bananeiras, para onde iam  as moças mais abastadas de sua geração.    Essa era minha mãe, nascida Maria Evanise Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, antes de ser  a dona Vaninha ,  esposa do jovem advogado e jornalista Abelardo de Araújo  Jurema, que viria  a se tornar um dos homens mais poderosos do País como   Ministro da Justiça da República Federativa do Brasil.     Com  esse ‘pedigree’, para usar um adjetivo da época , que , felizmente, caiu em desuso, era de se supor que  fosse uma mulher arrogante, pernóstica e alheia aos problemas sociais ; distante da realidade e das questões mais agudas como a miséria, a fome e as condições de precariedade que atingem  aqueles que padecem nas ruas , nos corredores dos  hospitais, dormindo embaixo das marquises ou dos viadutos das grandes cidades; de mães que carregam os seus filhos nos braços, pedindo dinheiro para suas necessidades,  na porta das casas, das igrejas, ou nos sinais de trânsito.    Mas a dona Vaninha era diferente. Humana, acolhedora, generosa , tinha o hábito de alimentar tantos fossem aqueles que batessem à sua porta em busca de um prato de comida,  na  Cesário Alvim 27 e em todos os endereços onde morou ao longo de sua vida. O padeiro que lhe entregava o pão;o jardineiro que lhe aguava as plantas;  o bêbado da rua; o lixeiro que recolhia o lixo, o mendigo maltrapilho,  não fazia distinção e  lhes dirigia a mesma pergunta:    - O senhor já almoçou?      Na educação dos filhos, era uma mãe preocupada em transmitir  a compaixão e o compadecimento: “Não deixe comida no prato; tem muita gente passando fome no mundo”, advertia. Falava  com tanta veemência  que hoje,   junto aos meus filhos e netos, repito esse precioso ensinamento na hora das refeições. E,  o  que sobra nas panelas, a ordem é  reaproveitar e dar destino a outras bocas que carecem de alimento.    Agora, com a pandemia, é comum encontrar pessoas com fome.   Homens, mulheres, crianças, algumas de colo, são famílias inteiras pedindo socorro, expondo a sua carência premente. “A fome tem pressa”,  dizia José Américo de Almeida.  A cena, constrangedora, me  entristece e  ruboriza. Tenho dificuldades de olhar  sem me compadecer, de me sentir injusto e de não me envergonhar de mim mesmo por não poder fazer mais e ainda me queixar da vida e dos meus problemas.    Enquanto  alguns governos  fingem   não compreender  a gravidade da situação, e ironizam a  desgraça alheia,   diante de um quadro  dramático que se alastra a cada dia, vamos fazendo a nossa parte. O momento é de ajudar a repartir o pão, como ensinou o Criador. E lembrar o que disse o filósofo russo Lev Tolstoi:    - Se você sente dor, é porque está vivo. Se você sente a dor das outras pessoas, você é um ser humano.    A hora é de  dar  de comer a quem tem fome.  

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