Respeito à vida

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Quando eu era criança tinha uma marca  no meu braço esquerdo, bem próximo ao ombro. Não apenas eu, mas meus pais e todos os meus irmãos. Era um sinal, como um selo, que identificava quem havia sido vacinado contra a varíola, uma doença mortífera que , no inicio do no século 20, matou  milhões de pessoas  até ser erradicada através de  uma vacina criada por um cientista inglês, Edward Jenner, que pode ser considerado um dos maiores benfeitores da história da humanidade. O certificado da imunização era obrigatório, exigido por Lei,  e era solicitado  na matrícula do colégio, junto com os documentos de praxe.  Ainda morava no Rio de Janeiro quando surgiu uma epidemia de meningite, uma doença endêmica rara  que atingiu duramente o Brasil, principalmente  a região sudeste ,  responsável pela morte de milhares de pessoas, principalmente crianças. Estávamos em 1974 e o País vivia sob regime militar e, naquela ocasião, como agora, o Governo também adotou uma postura negacionista, sonegando informações à população na tentativa de minimizar o problema e evitar que o fato pudesse atingir a ilusão  do Milagre Econômico , além de prejudicar a imagem do Brasil no exterior. Médicos e sanitaristas foram proibidos de falar sobre o assunto, que foi considerado questão de segurança nacional.  Com a curva de casos em ascensão sobre áreas centrais do Sudeste e em Brasília, não havia mais como impedir o fluxo da informação. Em março de 1974, o presidente Ernesto Geisel  reconheceu  o problema publicamente e criou a Comissão Nacional de Controle de Meningite, que importou milhões de doses da vacina. Aulas foram suspensas e escolas abrigaram hospitais de campanha. Três anos após o início da crise, as medidas adequadas foram tomadas e a doença foi controlada.
Relembro esses fatos para chegar à situação que vivemos agora quando o Brasil enfrenta uma das maiores tragédias de todos os tempos, a pandemia do coronavírus, que se estende há quase um ano e já provocou mais de 180 mil mortes, equivalente ao publico que lotou o Estádio do Maracanã na final da Copa de 1950. Além disso , quase 7 milhões de brasileiros foram infectados e viveram a triste  experiência de conhecerem os seus efeitos até se recuperarem em tratamentos longos e dolorosos na precária rede hospitalar do País.  E o que assusta não é apenas o vírus. É a forma irresponsável  como o as autoridades lidam  com o problema, adiando decisões e transformando a vacinação, sonhada por todos, num jogo político, num conflito de interesses, numa disputa fratricida para saber quem pode lucrar mais em cima do sofrimento e da desesperança dos que perderam  parentes e pessoas queridas,  nesse drama cruel que atinge a todos nós.  Não se discute a eficácia da vacina, mas a sua procedência, enquanto que aos brasileiros não importa de onde venha . O que se espera é que seja testada , confiável  e em quantidade suficiente para atender a toda a população brasileira. A obrigação do Governo é adquirir o produto,  disponibilizar o remédio, planejar e  providenciar a sua distribuição,  sem  contabilizar   quem vai ou não fazer uso dele.   Pior do que o covid-19, é o vírus da desfaçatez, da negligência, da inconsequência e do desrespeito de quem deveria ter a responsabilidade de cuidar da saúde pública e garantir a todos o direito à vida.

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