Foi com esse título que recebi um livro, na realidade uma antologia,
publicada em 1937, editada pela Livraria do Globo, em Porto Alegre, e
produzida por Estevão Cruz, um filósofo e mestre da língua portuguesa,
que viveu no inicio do século XX . Ele é autor
de diversas obras que mergulham na língua portuguesa,
na gramática e na ortografia, explorando e desvendando
o universo desse idioma fascinante, com um vocabulário
tão rico em palavras e expressões, com que
nos contemplaram os portugueses que aqui aportaram em 1.500, deixando
uma herança que nos cabe cultuar e preservar eternamente.
No prefácio, o autor o considera “um livrinho que pomos nãos mãos dos
terceiranistas do curso da língua materna”. Mas, na realidade, trata-se
de um compêndio em que analisa o trabalho de vários autores daquela
época,
que se consagravam nas letras e na literatura, abrindo espaço,
também, para outros que se iniciavam e se projetavam com os seus
conhecimentos literários, inspirados a partir da
Semana de Arte Moderna de 1922.
Pois foi nessa obra, uma verdadeira relíquia
que me foi encaminhada por um leitor anônimo, que encontrei um capítulo dedicado a meu pai, Abelardo de Araújo Jurema,
então um jovem de 23 anos, ainda estudante da Faculdade de
Direito do Recife, que estava ali, biografado em meio a celebridades
como José Américo de Almeida, José Lins do Rego, Jorge Amado, Gilberto
Freyre, Leonel Coelho , Cecília Meireles e outros baluartes
da literatura brasileira.
Com a permissão dos leitores, vou transcrever um pequeno trecho do que Estevam Cruz fala
sobre aquele paraibano que se iniciava no cenário cultural do País:
- “Nas letras, tem pernas, força e coragem para empreender qualquer
viagem, por qualquer caminho. Uma vereda mesmo lhe basta: dentro em
pouco o que fica para trás é estrada larga para os outros. Junte-se à
esse talento, à essas qualidades excepcionais, uma
mais excepcional ainda: modéstia , encantadora modéstia”
E o autor vai adiante: “Abelardo, não obstante esses verdes anos, já não
é mais uma risonha esperança do nordeste: é uma afirmação de
privilegiada inteligência. Nos meios literários do país, onde já
conquistou lugar bem vistoso, olha-se com simpatia e interesse
a sua ascendente trajetória”.
E para ilustrar o seu comentário, Estevão Cruz publica um discurso proferido por Jurema, como orador de um
Curso de Conferências na Faculdade de Direito do Recife, em
que revela a amplitude e visão do seu pensamento diante do futuro:
- “É necessário que a difusão cultural faça desaparecer a rivalidade
entre os ramos do conhecimento. Que haja uma cultura geral bem
solidificada que permita ao bacharel assistir com satisfação uma
conferência sobre astronomia; ao médico um discurso jurídico
e ao engenheiro uma exposição de psicanálise”.
Que me perdoem os leitores que acham que me excedo na evocação ao
“velho Abelardo”. Mas é difícil conter a inspiração e os ensinamentos de
vida desse
homem tão singular, que só deixou exemplos de simplicidade,
desprendimento e
generosidade, tornando-se ainda maior do que efetivamente foi, a partir de descobertas como essa que comovem e
preenchem o nosso orgulho conterrâneo.
Programa de vernáculo
15 Jun 2021- 172