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O salário moral

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Foi com meu pai que aprendi o significado de um vocábulo criado por ele e que define  o valor das compensações que recebemos pelo nosso trabalho e pelas nossas atitudes. Chama-se ‘salário moral’, uma remuneração que não pode ser contabilizada, onde não incide o imposto de renda,  que  está muito acima de qualquer moeda. Uma  espécie de pagamento que nos preenche a alma e o espírito; que nos comove e emociona; que nos conforta e nos envaidece. Não foram poucas as vezes que ouvia o ‘velho’ Abelardo repetir a expressão, sempre que alguém lhe abordava para agradecer um favor recebido, para elogiar um dos seus artigos em  O Norte,  reconhecer  a sua integridade ou  para manifestar  a sua admiração pela sua trajetória,  exaltando os seus feitos e  as suas qualidades  de homem público. Certa vez, em meados dos anos 70, estava com ele num show  de cantora Elis Regina, no Teatro da Praia, no Rio de Janeiro, quando o seu nome foi anunciado por ela,  agradecendo a sua presença na plateia. Fiquei perplexo. Afinal, tratava-se da maior cantora brasileira e  não imaginava que ele a conhecesse  pessoalmente. - Queria ressaltar aqui a presença do ministro Abelardo Jurema, um paraibano ilustre,  com quem estive  em Lima, no Perú, e que honra o povo brasileiro. Ele se levantou e foi aplaudido pelo público que lotava o auditório. Ficou tão comovido que, ao final do espetáculo,  foi aos camarins agradecer a homenagem   da amiga de quem havia se aproximado  durante o seu exílio na capital peruana. Ao final, comentou comigo: “isso, meu filho,  é  o salário moral”. Felizmente, tenho experimentado essa sensação algumas vezes. De receber um agradecimento inesperado;  de merecer o reconhecimento por algo  que fiz e sequer  me lembrava. E quando  isso acontece recordo aquelas palavras  e sinto como se tivesse ganho um bilhete premiado da loteria. Esta semana decidi levar, pessoalmente,  um exemplar da segunda edição do  livro Cesário Alvim 27, recentemente lançado pela UFPB,  a alguém  que o havia adquirido pela internet. O endereço era próximo à minha residência, no Bessa, e resolvi ir até lá para conhecer de perto  quem havia demonstrado  interesse pelo meu trabalho. Subi  ao apartamento, no primeiro andar, onde encontrei uma senhora, dona Maria José,   que me recebeu carinhosamente. Uma mulher simples, num apartamento modesto, que, junto ao seu marido e ao seu filho,  me cobriu de palavras de afeto. Que conhecia a minha vida como poucos; que acompanhava as minhas conquistas e sofria com as minhas angústias; que lia tudo a meu respeito e rezava por mim todas as noites. - Não acredito que você está aqui em minha casa. Ah! Que belo presente você me dá.  Que Deus seja louvado!  O acompanho há muitos anos, sei da bondade de sua alma e rezo muito por você e por sua família. Fiquei sem palavras, surpreso com  tamanha manifestação de amor. Puro e desinteressado. E fiquei a refletir  a responsabilidade que  o Senhor  me confere ao despertar sentimentos tão belos e nobres em quem jamais conheci. Antes de sair, dona Maria José  me presenteou com  um vidro de água benta: “É para a sua proteção”. E me veio à mente aquele  conceito definitivo  do meu saudoso e amado pai:  “salário moral. Não há dinheiro que pague”.

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