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Abelardo
Jurema Filho
O ronco da
cuíca
Abelardo
Jurema Filho
Entre as
muitas lições que aprendi com minha mãe, uma delas, e a que considero mais
importante, foi que não se deve deixar comida no prato. “Sirva-se apenas com o
que vai comer: tem muita gente com fome nas ruas”, advertia dona Vaninha, que
não admitia desperdício de alimentos. Frequentemente, destinava o que sobrava
de nossa mesa a todos os que poderiam ter fome.
O carteiro,
o entregador de pão, dos jornais, o
lavador de carros; o “garrafeiro” que recolhia garrafas; o meu amigo Pelé, que
morava no morro e com quem eu jogava bola na rua; e até o jardineiro do
vizinho, todos sabiam que, naquele endereço, numa necessidade, nunca lhes faltava
o que comer.
Cresci com
esses ensinamentos e passo essa recomendação aos meus filhos. Não consigo jogar
um pão na lata de lixo sem antes refletir se ele poderá servir para alimentar
alguém. E fico a me perguntar: para onde vai o que sobra dos restaurantes e
supermercados?
Faço essa
introdução até chegar ao quadro desolador que vemos nas ruas de João Pessoa
nesses dias soturnos que estamos vivendo, onde famílias inteiras se aglomeram
nas esquinas, com seus filhos pequenos no colo e correndo pelo meio dos carros,
clamando pela misericórdia alheia.
- Peço ajuda
para comprar alimentos para a minha família, diz o cartaz, escrito com carvão numa
folha de papelão, exibido por uma menina, de olhos tristes, com a idade da
minha neta Carolina, que deveria estar na escola ou brincando num parque.
É difícil
não se comover. Não se indignar. Não se repreender ou se envergonhar. Dentro do
meu carro, ar condicionado ligado, fico ruborizado ao admitir àquela menina
indefesa que estou sem dinheiro para ajudar a quem tanto precisa. É uma
situação tão constrangedora que chego ao escritório encabulado e triste,
preocupado com as crianças do meu País.
E o que mais
impressiona é que o quadro se agrava a cada dia diante da passividade dos
Poderes Públicos, dos Conselhos Tutelares, e dos órgãos assistenciais que
deveriam cuidar dos menores carentes, como previsto na Constituição e no
Estatuto da Criança e do Adolescente. A imprensa não denuncia o crime cometido
contra vulneráveis usados para arrecadar dinheiro; a sociedade não esperneia e o
cinto vai apertando, esmagando o estômago da nossa consciência e nos tornando
reféns da tragédia iminente.
A fome dos
nossos semelhantes é responsabilidade de todos, como diz a letra de uma velha
canção de João Bosco e Aldir Blanc, que me lembro agora:
- Roncou de
raiva a cuíca, roncou de fome; alguém mandou parar a cuíca é coisa dos home. A raiva dá pra parar, pra
interromper; a fome não dá pra interromper. A raiva e a fome é coisa dos home.
O que a
gente ouve e assiste todos os dias, é o ronco da cuíca, que fingimos não
escutar.