Certa vez, quando era o Líder da Maioria do Governo Juscelino Kubitschek na Câmara, o deputado federal Abelardo Jurema assistiu o momento em que o marechal Henrique Teixeira Lott, da linha dura do Palácio Laranjeiras, durante reunião do Ministério, sugeriu o “fechamento” do jornal Tribuna da Imprensa que, sob o comando do governador da Guanabara, Carlos Lacerda, fazia ferrenha oposição ao Governo, com denúncias graves, colocando em risco a popularidade e a liderança conquistadas pelo presidente JK perante a opinião pública. Juscelino interveio: “De jeito nenhum. A Tribuna presta inestimáveis serviços ao meu Governo porque está sempre a denunciar e fiscalizar, inibindo os atos de corrupção daqueles que não resistem às tentações e querem lesar a administração pública em proveito próprio. Deixa o jornal falar e fazer a parte dele. O que nos cumpre é fazer a nossa parte. Imprensa existe para criticar e temos que conviver com ela”. Essa passagem consta de um depoimento, de quase 8 horas, que Jurema conferiu à Fundação Getúlio Vargas, a pedido do professor Oswaldo Trigueiro do Vale, membro da Academia Paraibana de Letras e, à época, professor da FGV, que está gravado num dos arquivos da instituição que conta a história brasileira do nosso tempo. No Brasil de hoje, há uma forte campanha, que se desenvolve nas redes sociais, visando desacreditar o papel dos jornalistas. Não de um órgão específico, como foi o caso do episódio de JK, mas toda a Imprensa, nacional e internacional, que estaria “dominada pelos comunistas”, numa “grande conspiração” para contrariar os interesses e derrubar quem ocupa, legitimamente, o cargo de presidente da República. A onda atinge os mais respeitados veículos de comunicação do País, colocando em risco a própria integridade física dos profissionais, ameaçados e agredidos quando no exercício do seu trabalho. Desde que iniciei na profissão, ao transpor os portões do Jornal do Brasil, há quase 50 anos, aprendi que o jornalista não deve ter preferências partidárias; que deve fugir da idolatria e das paixões. Mas não pode se eximir em sua missão de informar, de opinar e comentar, sempre que entender necessário, quando está em jogo o interesse coletivo. Aos governantes, cabe respeitar a liberdade de expressão e rejeitá-la ao sentir-se ofendido ou vilipendiado, procurando a Justiça, quando for o caso, buscando a retratação ou a punição do infrator. Assim deve ser o jogo, assim são as regras democráticas. A Lei de Imprensa ainda está aí e, se não funciona, que seja aperfeiçoada. Buscar silenciá-la através da violência, retaliando, ameaçando e ofendendo a honra de quem trabalha dignamente, é atitude insensata e injustificável a qualquer governante, em qualquer esfera. O exemplo de JK, a que nos referimos no início deste artigo, deveria servir de exemplo para todos os políticos que, no exercício eventual do Poder, consideram que os órgãos que discordam de seus posicionamentos “não valem nada” e prestam um desserviço ao país e à sociedade. Para William R. Hearst, dono da maior cadeia de jornais dos Estados Unidos durante meio século, “jornalismo é publicar tudo aquilo que alguém não quer que se publique. O resto é publicidade”. Não vou tão longe. Jornalismo exige muita responsabilidade de quem assina e também existe para reconhecer valores e estimular os bons exemplos. Mas é certo que, dentro ou fora da imprensa, em qualquer situação e seja qual for a divergência entre as partes, ninguém ganha pela força. Só se vence, convencendo.
O papel da Imprensa
02 Mar 2021- 182