Estávamos em 1970, em pleno regime militar no governo do presidente
Médici, quando votei pela primeira vez. Acabara de completar 18 anos e o
país vivia a euforia da conquista da Copa do Mundo e eu iria fazer
minha estreia como eleitor. As eleições eram para
deputado estadual, deputado estadual e senador, já que, naquela época, o
governador era escolhido, indiretamente, pelas Assembleias Legislativas
indicados, naturalmente, pelos militares que exerciam o Poder.
Haviam apenas dois partidos: a Arena , que representava o Governo, e o
MDB, que reunia as forças de Oposição, onde despontavam nomes como
Ulysses Guimarães, Humberto Lucena, Orestes Quércia, Franco Montoro,
Tancredo Neves e outros políticos que comandavam a
resistência à opressão e ao arbítrio e simbolizavam a luta pela
resistência democrática que ganhava força no País.
Filho de político cassado, que amargara quatro anos de exílio, era
natural que me inclinasse pelos candidatos oposicionistas. Embora não
fosse um militante , temendo represálias – a família Jurema vivia sob
permanente vigilância dos órgãos de repressão – assistia
com interesse à propaganda político-partidária pela televisão, para inteirar-me das propostas dos candidatos.
Afinal, encarava a responsabilidade do voto – a minha primeira
manifestação expressa de cidadania – com grave seriedade. Para mim, era
como se eu tivesse a possibilidade de reagir diante da injustiça que se
abatera sobre a minha família, que vivia praticamente
acuada no apartamento da rua Gastão Bahiana, em Copacabana, onde os
filhos do ministro Abelardo Jurema eram visto com curiosidade e certa
reserva pelos vizinhos.
No dia da eleição, votei “fechado” em Nelson Carneiro, Danton Jobim e
Benjamim Farah, para o Senado; em Lisâneas Maciel, para deputado
federal, e Miro Teixeira para deputado estadual. Todos se elegeram.
Desta vez, atingido pela covid-19 – testei positivo na última segunda
feira – não pude comparecer à minha secção eleitoral para votar em
Cícero Lucena,
como era o meu desejo, e
exercer o direito cívico e sagrado de de quem tem compromissos
com a coletividade. Em isolamento social, determinado por orientação do
médico Túlio Petrucci, permaneci em casa acompanhando o desenrolar da
apuração pela televisão.
Ao final, os resultados me encheram de esperança.
As urnas revelaram que o povo brasileiro está farto de intrigas e
intolerâncias; de bravatas e ameaças; de radicalismos ideológicos ,
sejam de esquerda ou de direita. Candidatos
do centro, equilibrados e sensatos, que entendem a necessidade de
governar para todos e não apenas para os seus apoiadores; sem
discriminações e preconceitos e sem alimentar ódios e rancores, formaram
expressiva maioria na preferência dos eleitores.
As eleições municipais acenderam uma luz no fim do túnel. E sinalizaram
que, em 2022, nós possamos estar livres da tutela de um governo
sectário, opressor,
beligerante e impositivo; que tem fomentado o confronto, a discórdia e a desídia;
e que iremos reaver
o Brasil, que já tivemos e que todos almejamos;
de um só povo, uma só raça, um único sentimento de amor e esperança, como um país livre, feliz, democrático e soberano.
O país de todos
01 Dez 2020- 175