O anjo da guarda

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Ser filho de ministro tinha lá as suas vantagens. Embora fosse uma criança de pé no chão, que gostava mesmo era de caminhar  descalço pela Cesário Alvim, de andar de carrinho de rolimã, de passear de bicicleta e de jogar bola com os amigos, tive oportunidade de usufruir experiências incomuns aos garotos da minha idade.   Certa vez eu e meu irmão, João Luiz, passamos um dia inteiro no Copacabana Pálace, tomando banho de piscina, vendo de longe a Brigite Bardot e seu namorado, o brasileiro Bob Zaguri, além de comer todos os sanduíches e sorvetes que desejássemos. Em outra ocasião, estivemos no Hotel das Paineiras, local da concentração da Seleção Brasileira, conquistando autógrafos dos craques que naquele ano, de 1962,  ganhariam a Copa do Mundo no Chile, onde Garrincha jogou pelo time inteiro.   Como filho de Ministro, andei algumas vezes  de carro oficial, aquele mesmo, preto, com placa de bronze e bandeirinha sobre os faróis; assisti a uma das minhas irmãs, Vanita, que ainda hoje mora no Rio de Janeiro, quebrar uma garrafa de champanhe no casco de um dos navios da Marinha Brasileira , inaugurando oficialmente a embarcação; e viajei a Brasilia, no avião oficial da  Presidência da República – um Avro turbo-hélice, da FAB,  de fabricação inglesa – sentado ao lado do meu pai e do Ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro.   Entre essas regalias e “mordomias”, como filhos do Ministro da Justiça, tínhamos o privilégio de, como convidados especiais,  freqüentar o Iate Clube e a Sociedade Hípica Brasileira, duas da mais “fechadas” e importantes  agremiações sociais da cidade,  área privativa da  fina flor da sociedade carioca.   Certa vez, junto com o meu irmão e uma amigo de infância, Hiran Moraes Filho, o Hiranzinho, paraibano que até hoje reside no Rio de Janeiro, fomos tomar banho de piscina na sede da Hípica, localizada em endereço nobre da Lagoa Rodrigo de Freitas. Enquanto eu, aos 11 anos,  ainda não sabia nadar, embora tivesse um fôlego de sete gatos, meu irmão era exímio nadador.   Ao chegar ao clube, que eu ainda não conhecia, fomos direto para o parque aquático , com um formato em L, que era um convite irresistível ao nosso desejo de usufruir daquela água cristalina e dar vazão ás nossas energias e prazeres infantis. Mergulhei imediatamente na piscina grande , de adultos, sem conferir a sua profundidade nem se seria capaz de atravessá-la por inteiro. O resultado não poderia ser outro:  fiquei no meio do caminho e comecei a me debater e a gritar  por socorro.   João Luiz  foi ao meu encontro para me resgatar. Agarrei-me a ele, descontroladamente, impedindo a sua ação, e ficamos, os dois,  a nos afogar. Foi a primeira vez que vi a morte bem de perto e o fato só não se consumou porque um homem, surgido não se sabe da onde, nos arremessou uma bóia que nos salvou a vida.   Ao chegar em casa, e contar o que acontecera à minha mãe, dona Vaninha, ela disse que havia se sentido angustiada durante toda a tarde e que teria  rezado muito para o seu anjo da guarda.   Acredito que tenha sido Ele que nos socorreu naquela hora.  

  • Capítulo do livro Cesário Alvim 27 – Histórias do Filho de Um Exilado, que será relançado, em segunda edição, pela editora da UFPB. 

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