O ministro Abelardo Jurema mantinha-se
com o salário do Ministério da Justiça e de sua atividade
parlamentar, como deputado federal pela Paraíba. Nós, da família,
vivíamos confortável e modestamente. Tínhamos um único carro – uma
camionete Chevrolet Belair que servia a todos. Não possuíamos
iate, casa de campo ou de veraneio. Tínhamos um padrão de vida
semelhante aos nossos vizinhos da Cesário Alvim, pessoas educadas e
simples, que moravam em casas boas, como a nossa, mas sem luxo ou
ostentação.
Satisfazíamo-nos com programas simples como um passeio à praia aos
domingos, ir ao cinema, lanchar no Bobs de Ipanema ou, quando muito,
almoçar na Churrascaria Recreio que era a preferida do meu saudoso pai
que capitaneava esses momentos da família com raro
prazer e satisfação.
O uso do carro oficial era moderado, embora não houvesse o patrulhamento
de hoje. Certa vez, meu pai mandou o carro do Ministério que o servia –
um Cadilac preto, com chapa branca e equipado até com sirene – buscar a
mim e ao meu irmão João Luiz
que havíamos nos atrasado e perdido a condução
para voltar para casa após um evento da escola.
Indagado se não poderia ser alvo de criticas por isso, Jurema retrucou
que agia às claras, sem subterfúgios e com a consciência tranqüila:
- Sirvo à Nação e vivo com os proventos que ela me paga. O Governo tem a
obrigação de dar proteção e assistência à minha família, disse.
O ministro de João Goulart detestava os policiais federais
que eram colocados à seu serviço. Não permitia que o acompanhassem.
Gostava de sair à rua para comprar o próprio peixe. Fazer a
feira e conversar com seu
José, o dono da padaria da esquina. Agia e se conduzia na condição de
cidadão comum, como se fora um servidor público na mais exata definição
da palavra.
Vivia para servir ao próximo. E para os paraibanos,
de um modo muito especial.
O que se observa hoje no cenário político e administrativo do Brasil são
denúncias de atos de corrupção, de enriquecimento ilícito, nepotismo e tráfico de influência, além da empáfia, da soberba e
da arrogância de alguns dos nossos dirigentes.
A falta de
espírito público atinge a maioria dos políticos brasileiros,
que ali estão para saciar os seus interesses, a sua ambição e ganância, jamais para servir ao interesse coletivo.
Escasseiam os políticos
vocacionados e com aptidão para o
exercício do Poder, como instrumento da sociedade, comprometidos com a
causa pública. Governar para todos,
sem discriminação ou preconceitos; agir com responsabilidade,
serenidade e sabedoria; deixar a vaidade de lado e trabalhar com afinco visando melhorar
a qualidade de vida dos que sofrem, dos famintos, dos excluídos
e, também, dos que trabalham e contribuem para o bem estar social.
Essa é a receita aos candidatos eleitos no último
domingo e aqueles que ainda permanecem na disputa dos votos no segundo
turno. Que esses ensinamentos
sirvam de exemplo aos prefeitos e vereadores que irão assumir os seus cargos a partir de janeiro do próximo ano.
E que Deus nos abençoe a todos.
Espírito público
17 Nov 2020- 179