Eu a conheci ainda criança, na casa da Cesário Alvim, quando ela entrou
porta adentro através do aparelho de televisão que meu pai havia
adquirido e mantínhamos na sala, ainda em preto e branco, cujo sinal
havia chegado recentemente ao Brasil graças ao paraibano
Assis Chateaubriand, o visionário que trouxe ao País o sistema
que seria o precursor da tecnologia dos telões de
led e dos smartphones que hoje dominam o mercado brasileiro e mundial
das telecomunicações.
Eram os anos 50 e eu tinha de 7 para 8 anos quando parei diante da TV
para assistir um programa que talvez nem fosse adequado à minha idade,
com titulo de comédia romântica – “Alô, Doçura! - mas que me chamou a
atenção apenas por conta da atriz que o protagonizava,
uma mulher desconcertantemente linda chamada Eva Wilma, uma verdadeira
diva, filha de um imigrante alemão e uma judia de ascendência russa,
que iniciou a sua carreira como bailarina até descobrir a sua vocação
como atriz e se transformar num símbolo da dramaturgia
nacional.
Foi paixão à primeira vista. A partir dali, interrompia o futebol na rua e as brincadeiras
com os amigos, e o que mais estivesse fazendo,
para, junto com as minhas irmãs, acompanhar
a série que passou a dominar o horário da antiga TV Tupy e que mostrava
o cotidiano de um jovem casal , ela e o ator John Herbert, que formavam
par romântico
e divertido, na frente e atrás das câmeras,
e com quem viria a realizar uma série de novelas e produções,
no cinema e na televisão, de grande sucesso, sob aplausos da critica e
do público.
A partir dos anos 70 acompanhei ainda mais de
perto todos os seus trabalhos e me comovi com muitos dos seus
personagens. Mais recentemente, numa das reapresentações com que nos
contempla o canal Viva, pude assisti-la em um dos seus papéis
mais marcantes, a vilã Altiva, na trama Selva Sobre Pedra, de Aguinaldo
Silva, onde contracenava com o não menos brilhante Ary Fontoura, que a
consagrou entre as maiores estrelas do teatro, do cinema e da televisão
brasileira, em todos os tempos.
Tão longa convivência nos aproxima de alguns artistas como se eles
fossem nossos velhos conhecidos. Alguns deles, passam a fazer parte da
família. Enquanto outros vão mais além:
despertam em nossos corações sentimentos mais profundos, como se
estivéssemos unidos por laços sensoriais mais intensos,
que só podem ser explicados pelos mistérios Divinos que determinam a
afinidade, empatia e simpatia, inerentes à natureza humana, a nossa origem e o nosso destino.
Chorei muito com a morte de Eva Wilma. Uma mulher que se caracterizava
pela simplicidade e generosidade como se comportava com os colegas; que
compartilhava suas experiências; que repassava conhecimentos aos que
se iniciavam na arte de representar
e não se furtava aos seus
deveres de cidadã, como ficou demonstrado na crônica de ontem do
jornalista Silvio Osias, na versão online do Jornal
da Paraíba, em que resgata uma foto histórica,
de 1968, ano mais agudo do Regime Militar , onde
está ao lado de outras grandes atrizes – Eva Todor, Tonia Carrero, Leila
Diniz, Odete Lara e Norma Benguel - numa marcha cívica
em defesa da democracia e da liberdade.
Ave, Eva! O Senhor é convosco.
Ave, Eva!
18 Mai 2021- 164