A minha vida foi toda construída sob a inspiração de suas musicas. Aos 12 anos,
ouvia a buzina do seu Calhambeque, aquele
mesmo carro em miniatura com que eu brincava nas ruas da Cesário Alvim.
Aos 14, nas festas do colégio e em casa de amigos, experimentava a
indescritível sensação de dançar de rosto colado
ao som da Nossa Canção. “Vou cantá-la seja onde for, para nunca
esquecer o nosso amor”, dizia a letra, singela e comovente.
Aos 15, me apaixonei pela Namoradinha de Um Amigo
Meu. Parecia que ele havia desvendado o meu segredo mais intimo e
revelado a minha angústia. Ainda nesse tempo, interpretou a minha
rebeldia mandando
tudo às favas. “Só quero que você, me aqueça nesse inverno, e que tudo o mais vá para o inferno”, bradava.
Por toda a adolescência ele esteve sintonizado em meus sonhos
e conquistas. As dores da primeira decepção amorosa e os Detalhes “tão pequenos de nós dois”,
me consumiam. Imaginar alguém “tocando o seu corpo como eu,
sem dizer nada “ era demais para mim que também
era cabeludo e usava calça desbotada.
Entre 16 e 17, com os hormônios em franca ebulição, ele foi de encontro
aos meus pensamentos com a primeira Proposta indecente. “Eu te proponho,
te dar meu corpo, depois do amor o meu conforto”, soprava ao me ouvido,
para eu criar coragem e falar das minhas intenções
ao meu primeiro amor.
Ainda nesse período, revelou os segredos da intimidade
feminina. “Vou cavalgar por toda a noite, por uma estrada
colorida, usar meus beijos como açoite e a minha mão mais atrevida”, me
ensinando
como se tocar uma mulher.
Aos 18, foi mais além ao mostrar o
sentido da verdadeira amizade: “você meu amigo de fé, meu irmão
camarada, de tantos caminhos , de tantas jornadas, aquele que está do
meu lado em qualquer caminhada”, identificando
aquele amigo com quem eu mais contava.
Até o amor pelos meus pais ele conseguiu captar. A sua Lady Laura era em
tudo e por tudo igual a minha mãe e a música poderia chamar-se Dona
Vaninha. E aquilo
o que eu sempre quis dizer ao dr. Abelardo ,
ele disse antes:
- “Seu sorriso franco me anima, seu conselho certo me ensina, meu querido , meu velho , meu amigo”.
Há dois anos, depois de alguma frustradas tentativas, tive a oportunidade de estar com ele
pessoalmente, convidado
para assistir ao show que faria no Spázzio, em Campina Grande,
com direito a ingresso na primeira fila e o compromisso de uma visita ao
seu camarim após o espetáculo.
Estava naturalmente ansioso em conhecer – ou seria reconhecer? - alguém que já fazia parte da minha vida há tanto tempo. Com quem eu tinha a intimidade de um
amigo de infância. Ao vê-lo, senti a força de sua presença iluminada. Deu-me um abraço carinhoso como quem revê
um companheiro de longa viagem e conversamos
sem qualquer protocolo.
Ontem ele completou 80 anos. A minha vontade é de beijar-lhe as mãos
e agradecer pelos seus exemplos de humildade, generosidade,
simplicidade, afetividade e amor ao próximo que ajudaram a construir
minha personalidade e que me fizeram
uma pessoa melhor.
Obrigado Roberto. Vida longa ao Rei!
As canções do Roberto
19 Abr 2021- 170