no image

Adeus às armas

  • 166
Fonte:
Imprimir

Certa vez, quando ainda era uma criança de 10 ou 11 anos, observei meu pai se vestindo para sair para mais um dia de trabalho exaustivo, num momento em que o País atravessava período de inquietação, com rumores cada vez mais frequentes de levantes militares que poderiam colocar em risco a normalidade constitucional. Surpreendi-me ao constatar que, sob o seu paletó, usava um coldre, no melhor estilo Eliot Ness, com uma pistola prateada. A princípio, admirei a cena pela semelhança com o meu herói do cinema. Mas ele notou e me fez uma advertência: “meu filho, estou usando isso como proteção pessoal, por conta das minhas responsabilidades como Ministro da Justiça. Mas não se entusiasme: num país civilizado as pessoas devem portar livros e não armas de fogo”. Quando casei e tive o meu primeiro filho, resolvi que deveria ter um revólver para proteger a família. No “câmbio negro”, adquiri uma Beretta, de fabricação italiana, no melhor estilo James Bond. Certa vez, cheguei até a trocar tiros com um visitante indesejado que resolveu entrar de madrugada em minha casa, no Jardim Luna. Felizmente, nenhum de nós foi atingido. Após esse episódio, com a campanha do desarmamento confirmada por plebiscito, me desfiz dela entregando-a num posto do Corpo de Bombeiros. Concluí que portar uma arma poderia ser mais perigoso do que não tê-la e que, ao invés de um instrumento de defesa, poderia me tornar um assassino. Lembrei-me do caso de um empresário paraibano, que conheci no presídio do Roger, onde estive como representante da Comissão de Direitos Humanos da OAB, que cumpria pena por haver assassinado um homem durante uma discussão no trânsito. - Eu o matei porque estava com um revólver no porta-luvas, admitiu. São essas cenas que me surgem à mente quando tomo conhecimento da política do Governo Federal, obcecado em armar a população, até os dentes, tentando convencer o país de que “povo armado jamais será escravizado”. Com medidas que passaram a valer desde ontem, quando entraram em vigor os decretos presidenciais, qualquer cidadão brasileiro poderá adquirir, legalmente, não apenas um revólver, mas um verdadeiro arsenal que inclui pistolas, rifles, carabinas e outras armas de grosso calibre até então de uso exclusivo das Forças Armadas. No momento em que o Brasil supera a marca de 350 mil vítimas fatais na maior tragédia dos últimos 100 anos; quando famílias choram a perda dos seus entes queridos; quando o País se defronta com uma crise sanitária sem precedentes; quando faltam vacinas para imunizar a população, fica difícil compreender o que se pretende ao desviar a atenção dos brasileiros para um tema tão inoportuno e intempestivo, associado à dor e violência, que aflige ainda mais o cotidiano de uma nação infectada por um vírus mortífero e que enfrenta tantas vicissitudes. O professor Darcy Ribeiro, ex-ministro da Educação nos anos 60, sociólogo, antropólogo e educador, respeitado mundialmente, que criou, planejou e dirigiu a implantação dos Centros Integrados de Ensino Público (CIEPS), um projeto pedagógico visionário e revolucionário que criou o sistema de educação em tempo integral nas escolas, disse, certa vez , uma frase profética: - “Se não construirmos escolas, no futuro teremos que construir mais presídios. Violência não se combate com violência. Justiça não se faz com justiceiros. O que o nosso país necessita é de vacina, educação e oportunidades para todos.

no image
Matéria Anterior Propaganda High Tech
Próxima matéria Nordeste Incorporações capta 140 milhões
Leia também:

+Notícias

Não perca as mais lidas da semana

no image
Ver mais notícias