Em fevereiro de 1964, às vésperas da chamada Revolução de Março, o país
respirava um clima de muita inquietação. O Rio de Janeiro, então a
principal caixa de ressonância da política brasileira, vivia momento de
forte ebulição sob a liderança de Carlos Lacerda
udenista histórico e uma das vozes mais eloqüentes da Oposição ao
governo João Goulart do qual o meu pai era o ministro da Justiça.
O “lacerdismo” , no Rio, era uma praga. Como governador, Lacerda tinha
feito uma administração realizadora, com a construção do túnel Rebouças;
a conclusão do aterro do Flamengo; a remoção de favelas para conjuntos
habitacionais e uma série de outras ações
que tinham o apoio da população, sobretudo da classe média.
A cena política ganhava uma face de insurreição, que
ganhou força com a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, que
reuniu milhares de pessoas, e a chamada Revolta dos Sargentos que
colocou ainda mais fogo nas Forças Armadas que,
àquela altura, já sinalizava o seu descontentamento com os rumos do
Governo, acauteladas contra uma suposta “comunização” que, segundo os
setores mais reacionárias, estaria em curso no Brasil.
Pois foi dentro desse quadro de insegurança e apreensão que a família
Jurema foi acordada na noite do dia 15 de fevereiro, por volta das 5h da
manhã, acreditando no que seria uma invasão de uma tropa militar em
plena madrugada. Eu e meu irmão caçula, João Luiz
( já falecido) fomos acordados pela nossa “babá” Iracema, que dormia no
quarto conosco: “Meu Deus, estão invadindo a casa”, alardeou,
completamente apavorada. Pela fresta da janela só era possível
vislumbrar uniformes de soldados que se posicionavam em frente
a nossa casa na Cesário Alvim 27.
Meu pai levantou-se, vestiu um robe de chambre vermelho, e desceu
imediatamente para saber o que estava acontecvendo. Mal abriu a porta,
ouvir o toque de alvorada pelo conrneteiro da banda do Exército que ali
estava para homenageá-lo pelo seu aniversário –
50 anos, que ele comemorava naquela data. Jurema quase não conseguiu
disfarçar o susto. Assim mesmo , chamou a família e ouviu perfilado os
acordes da banda que entoou o “parabéns pra você” e terminou com a
execução do Hino Nacional Brasileiro.
Depois de agradecer ao maestro e componentes da banda, Jurema chamou o
seu Chefe do Gabinete Militar , responsável por toda aquela pantomina:
- “ Coronel, estou muito lisonjeado mas não precisava tudo isso, disse em tom de reprovação.
- Mas, Ministro, o senhor não gosta de surpresa?, quis saber o militar.
- Gosto coronel, desde que eu seja avisado antes.
Pouco mais de um mês após aquela honraria, Jurema foi preso por oficiais
do Exército, no aeroporto Santos Dumont, quando pensava viajar a
Brasília para reassumir o seu mandato de deputado federal pela Paraíba.
Como diria Augusto dos Anjos: a mão que afaga, é a mesma que apedreja.
A surpresa anunciada
10 Nov 2020- 176