Algumas semana atrás, aqui neste espaço em A União, fiz referência a uma
governanta inglesa que teria vivido em João Pessoa, contratada pelo meu
avô,
‘coronel’ Oswaldo Pessoa, ex-prefeito da cidade e um dos poderosos da época,
para tomar conta de suas sete filhas , entre elas minha mãe,
Dona Vaninha Pessoa Jurema. Agora, através do
professor e pesquisador Marcilio Franca, estudioso da genealogia da
família Pessoa, a partir do presidente Epitácio, fico sabendo detalhes
do episódio que , de certo,
interessará aos leitores pelas curiosidades que abriga e pelos personagens nela envolvidos. Ei-la:
- “Criador de Sherlock Holmes, um fenômeno da literatura mundial, o
escritor inglês Arthur Conan Doyle tinha três irmãs que foram
governantas em Lisboa, onde aprenderam o português. No final dos anos
30, o presidente Epitácio Pessoa sugeriu a seu sobrinho,
Oswaldo Pessoa, que contratasse uma governanta inglesa para ajudar na
educação de suas filhas. O Cônsul inglês no Recife cuidou de tudo, e foi
assim que uma irmã do
sir Arthur Doyle, miss Mary Doyle, veio para a Paraíba e
ficou aqui até falecer de câncer de mama em 1941, quando estávamos no
auge da Segunda Guerra Mundial. Conta-se que nos últimos momentos de
vida, pediu para a enfermeira abrir a janela e
bradou: London, London!
A história da governanta inglesa, irmã do criador
de Sherlock Holmes, virou uma rádio-crônica escrita por um jovem
jornalista de então chamado Abelardo Jurema, genro do coronel Oswaldo
Pessoa. O
texto foi lido pela voz eloquente do locutor
Orlando Vasconcelos no programa denominado “Do Teatro da Guerra” em que
Jurema associava o fato ao heroísmo dos jovens pilotos da RAF que
enfrentavam nos céus de Londres os
aviadores alemães da Luftwaffe.
A crônica fez um sucesso tão grande que a @bbcbrasil pediu autorização
para retransmiti-la . A partir de então, Abelardo Jurema passou a
escrever para a BBC de Londres, o mais respeitado veiculo de comunicação
da época”.
Esse fato, que consta de compêndios da história da radiofonia paraibana
assinados pelo historiador José Octávio de Arruda Melo e pelo jornalista
Gilson Souto Maior , não se encerra aí. Testemunhas oculares daquela
época, incluindo o saudoso jornalista Geraldo
Cavalcanti, que durante muitos anos pontificou na emissora oficial,
contava que o autor daqueles escritos
recebeu um pagamento da BBC londrina – um valor
considerável, em libras - referente aos direitos autorais pela
divulgação dos seus textos.
Jurema, que era diretor da rádio, reuniu os funcionários em seu gabinete
e repassou o cheque para que eles dividissem entre eles justificando
que eram os maiores
responsáveis pelo êxito do trabalho.
Narro o episódio e o levo ao conhecimento dos leitores
não por vaidade, mas pela largueza do gesto,
pelo exemplo de generosidade e desprendimento;
e, também,
pela responsabilidade que me confere carregar, além do seu
próprio nome, o caráter magnânimo, a alma benfazeja e o espírito
humanitário
de quem dedicou a sua vida a servir aos seus conterrâneos e ao seu país;
a representar a Paraíba em todos os cenários que frequentou; em todas as conquistas que obteve como homem público.
E que permaneceu assim, mesmo depois de cassado e
exilado, réu sem culpa,
sem deixar endurecer o seu coração e
fiel ao que sempre pregou:
- “Meu filho, só o amor constrói para a eternidade”.
A governanta inglesa
01 Jun 2021- 179