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A cidade do meu amor

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Abelardo Jurema Filho

Como todo mundo sabe, sou carioca, nascido na Casa de Saúde Santa Lúcia, em Botafogo, e criado em Copacabana, onde permaneci até os 23 anos quando já estava no terceiro ano de Direito e me iniciei como repórter no Jornal do Brasil, à época o maior jornal do País. Por conta disso, muita gente ainda pergunta por que vim para a Paraíba, deixando para trás toda a minha história de criança e adolescência no Rio de Janeiro, quando já estava encaminhado na vida, com emprego fixo e uma faculdade a cumprir.  Ocorre que a minha relação com a Paraíba é muito antiga. Era um menino de calças curtas quando vim pela primeira vez a João Pessoa, trazido pelos meus pais. Não recordo exatamente quantos anos tinha, mas é suficiente dizer que Tambaú era, praticamente, um balneário; que o meu avô, o coronel Oswaldo Pessoa, ainda era vivo com a perna dura e uma bengala vistosa, e que o caminho para o Cabo Branco era de terra batida. Os carros eram poucos, o telefone tinha quatro dígitos; a Epitácio Pessoa era calçada com paralelepípedos e a maioria das pessoas morava no Centro da cidade.  Fiz o trajeto entre o Rio de Janeiro e João Pessoa de todas as formas: de carro, à bordo de um Fusca 68, ao lado do meu irmão Oswaldo e do meu primo Elmano Neiva (já falecido); de Rural Willys, com o meu tio Alberto Caldas; de ônibus da Itapemirim e de navio, com o meu primo Fernando e os meus tios Fernando e Lourdinha Milanez, quando ele era um dos diretores do Loyd Brasileiro.  Gostava do cheiro de sargaço na praia de Tambaú, onde “ajudava” os pescadores a puxar a sua rede; encantava-me com a quantidade de primos que possuía por aqui; ficava perplexo com a beleza primitiva da praia do Poço dos meus saudosos tios Lala e Bento Pereira Diniz, e, sobretudo, me seduzia a hospitalidade e o carinho dos paraibanos.  Afora tudo isso ainda havia o carnaval. Ah! O carnaval... Nada podia se comparar aos bailes do Cabo Branco, aos acordes da orquestra de Villô dando início à festa; ao corso no Parque Sólon de Lucena; aos blocos de sujo nas ruas e àquela manifestação coletiva de euforia que contagiava e irradiava felicidade plena naquele sanatório geral de emoção e alegria.  Hoje, nada disso existe mais. Mas surgiram outros valores que não a deixam menos atraente e sedutora.  A cidade cresceu e se multiplicou transformando-se numa grande metrópole de quase 1 milhão de habitantes. Surgiram grandes prédios a lhe modificar a paisagem urbana, a atestar o seu crescimento; novos empreendimentos a lhe mostrar o futuro; novos hábitos e costumes a acompanhar a evolução dos tempos.  O que não pode mudar nessa cidade de 436 anos, a terceira mais antiga do Brasil, são as suas tradições e as suas raízes. O respeito ao seu passado de lutas e ao compromisso dos que a construíram. Aos seus monumentos históricos e que integram o nosso patrimônio imaterial, artístico e cultural. E, sobretudo, o que deve prevalecer é o acolhimento dos que a habitam; é a generosidade e o desprendimento; é a compaixão, a solidariedade e o sentimento de amor ao próximo, muito além da intolerância provocada por momentâneas paixões políticas e ideológicas. Neste 5 de agosto, aniversário da cidade de João Pessoa, que Deus nos inspire a tempos de paz, saúde e esperança. 

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