Nos falávamos todos os dias e tínhamos uma forma única e especial de
tratamento, “muy amigo”, inspirada num personagem do humorista Jô Soares
num dos seus vitoriosos programas de TV, em meados dos anos 80. Era o
revisor dos meus textos,
dicionário das minhas dúvidas,
corretor das minhas palavras, e conselheiro de minhas ações. Elogiava e criticava no desejo de orientar e contribuir com o meu trabalho e
desenvolvimento, pessoal e profissional. Trocávamos segredos de confessionário e a nossa intimidade, afetiva e intelectual,
fazia com que eventuais divergências fossem
assimiladas
como adubo às nossas considerações e alimento às nossas conversas.
Tinha quase dois metros de altura e um
coração diretamente proporcional ao seu tamanho, onde sempre cabia mais
um. A lealdade era a característica mais forte de sua personalidade
envolvente
e sedutora, capaz de qualquer sacrifício para atender um amigo
que necessitasse sua presença ou de sua
palavra. Afetivo, sensível, generoso, tinha nas músicas do Rei Roberto
Carlos o roteiro de sua própria vida, do amante a moda antiga, do moço
velho, do último romântico, daquele
que é do tipo que ainda manda flores e que chama de querida a namorada, no caso a sua esposa Goretti.
Como pai , abarcava a todos com os próprios braços, sob a sua proteção. Não importava que os filhos estivessem crescidos:
tratava-os como se ainda fossem crianças.
Preocupava-se com toda a prole e era um vigilante da felicidade
alheia. Desprendido dos valores econômicos e materiais, viveu sem
ambições , desde que nada lhe faltasse para
manter a família com dignidade e pudesse usufruir a convivência dos amigos e
os pequenos prazeres que a vida oferece.
Profissionalmente, um craque. Cronista do cotidiano, publicitário imbatível em seus textos e frases, um jornalista completo que
passou por todos os estágios da profissão. Revisor, repórter, redator, editor , chegou a ocupar, a contragosto,
a Secretaria de Comunicação Social do governo
honrado do governador Tarcísio Burity. Levou para a gestão pública a
integridade que trouxe do berço e o que o fez passar incólume por todos
os cargos que exerceu com invulgar
transparência e responsabilidade. A morte de Martinho Moreira
Franco, apesar do duro golpe, não me pegou de surpresa. Vinha
acompanhando o seu martírio entre idas e vindas aos hospitais e
consultórios médicos. Compartilhava
suas angústias e comemorava suas breves conquistas em sua luta pela
vida. Mas, no íntimo, sabia que estava completando a sua jornada.
Vou tê-lo sempre guardado em
meu coração. No espaço destinado às pessoas mais
preciosas, de alma e de caráter. Estaremos permanentemente ligados,
sintonizados pelo espírito , pelas afinidades musicais, e pelo amor
fraternal que nos unia . O que cabe agora é agradecer por tanto carinho e generosidade
que me inspirava e
motivava a me tornar , cada vez mais, uma pessoa melhor. E me consola saber que a dor de vê-lo partir só é menor do que a imensa alegria que Deus me conferiu de tê-lo
ao meu lado por tantos anos;
um homem pleno, que só fez plantar o bem e encantou
a todos os que tiveram o privilégio de sua amizade.
Siga
em paz na companhia do Criador, 'muy' amigo. E vá espalhar
esse amor contido "nesse coração consciente da beleza das coisas da vida" em outros universos.
O "ombudsman" do coração
09 Fev 2021- 166