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Navegar é preciso

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Vivemos tempos difíceis. Sombrios. Sujeitos a fortes turbulências que nos abalam e nos assustam. Além das mortes  provocadas pela pandemia, mais de meio milhão de brasileiros,  convivemos com um ambiente hostil de ódio, agressões e insultos nesse clima beligerante alimentado por quem deveria ter como missão promover a paz. E tudo isso insuflado  por divergências políticas e ideológicas que transformaram o nosso País numa praça de guerra, dividida em  dois lados, de pessoas ensandecidas e cheias de rancor como se estivessem num campo de batalha com o objetivo de destruir “os inimigos”.  O Brasil do bom humor de Chico Anísio; das buzinadas do Chacrinha; do abraço de Gilberto Gil; o País Tropical de Wilson  Simonal; da Praça de Chico Buarque; da Garota de Ipanema de Tom Jobim; da diversidade étnica, social e cultural, que convivia em harmonia,  desapareceu por completo. Transformou-se numa nação  árida, inóspita, revanchista, homofóbica  e racista, invertendo valores, contaminado pelo vírus da inveja, da intolerância e do preconceito.   Além de todos esses dissabores, somos obrigados a conviver com as nossas perdas individuais. Semanalmente, somos surpreendidos com a partida inesperada de pessoas próximas, e às vezes nem tão próximas assim, mas  que fazem ou fizeram  parte do nosso mundo, da vida que vivemos;  que compartilharam ou motivaram as nossas emoções , alegrias e tristezas. Nas últimas duas semanas, foram-se os jornalistas Walter Galvão e Rogério Almeida, que comigo conviveram anos a fio na redação dos jornais, comprometidos com a ética e  lutando em defesa da sociedade.  Ontem, foi a vez de um primo muito querido, Candido Pessoa, o  Candinho, que, como o próprio nome indica, era uma pessoa candidamente nobre, gentil, carinhosa e solidária, filho  único do meu tio, Candido Pessoa Sobrinho, um homem boêmio que viveu pouco e o deixou aos cuidados de minha avó, dona Maria das Neves, com quem foi criado no velho casarão da família na avenida Capitão José Pessoa, em Jaguaribe.  Éramos da mesma idade e mantínhamos uma relação estreita e afetiva. Tínhamos muitas afinidades e há cinco dias, ao saber do seu internamento no Hospital da Unimed, fui visitá-lo. Por conta das regras vigentes na pandemia, não pude subir ao seu apartamento. Desapontado,  ia embora quando me alertei que poderia vê-lo através de uma ligação de vídeo pelo celular para  demonstrar  que estivera  ali para prestar a   minha solidariedade e expressar o meu amor, como era o meu desejo.  Conversamos por alguns minutos. Ví a sua imagem sofrida num semblante sereno . Pediu que rezasse por ele.  Agradeceu a minha presença e preocupação, mas encerrou o diálogo  garantindo que estava bem e que havia entregue a sua vida a Deus.  Fui embora com o coração apertado, sabendo que era uma despedida, que não o veria mais com vida. Mas confortado em saber que, antes de partir, Candinho estava confiante e em paz com sua consciência; que estava pronto para se abrigar nos braços do Senhor e receber a misericórdia Divina.  A partida do meu primo querido doeu muito, mas não me abateu. Ao contrário, fortaleceu o meu espírito para enfrentar as  adversidades e continuar acreditando que é necessário ir em frente para cumprir o nosso destino, com otimismo , confiança e fé no Criador. Como disse o poeta Fenando Pessoa: “navegar é preciso, viver não  é preciso”.

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